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Chico César procura adensar canções feitas na juventude em 'Fofo', álbum de voz, violão e algum experimentalismo

Chico César lança amanhã, 1º de maio, o álbum 'Fofo' com 16 canções autorais Sil Ribas / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Fofo Artista: Chico...

Chico César procura adensar canções feitas na juventude em 'Fofo', álbum de voz, violão e algum experimentalismo
Chico César procura adensar canções feitas na juventude em 'Fofo', álbum de voz, violão e algum experimentalismo (Foto: Reprodução)

Chico César lança amanhã, 1º de maio, o álbum 'Fofo' com 16 canções autorais Sil Ribas / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Fofo Artista: Chico César Cotação: ★ ★ ★ ♬ Primeiro álbum solo de Chico César desde “Vestido de amor” (2024), disco pautado pela leveza, “Fofo” traz à tona canções compostas pelo artista paraibano entre 17 e 20 anos, período em que o Chico residiu em João Pessoa (PB) antes de migrar para São Paulo (SP) aos 21 anos. Até então inéditas em disco, essas canções de juventude compõem a maior parte das 16 músicas do álbum “Fofo”, gravado pelo cantor no formato de voz e violão, tal como o disco de estreia de Chico, “Aos vivos” (1995), pedra fundamental de obra autoral que se difundiu na música brasileira ao longo dos últimos 30 anos na voz do autor e nas vozes de cantoras como Daniela Mercury, Elba Ramalho e Maria Bethânia. Há também canções mais recentes, compostas após a pandemia, caso de “Ligue o foda-se” (2023), mas a tônica do repertório reside no passado. Chico César regrava clipe de 'Mama África' em Catolé do Rocha (PB) Talvez por estar ciente de que a matéria-prima é no todo de qualidade inferior à do repertório de outros álbuns, fato natural já que a arte do compositor ainda não entrara em fase de maturação na época da feitura dessas músicas, Chico procurou adensar as canções de juventude com o canto e o toque do violão, como exemplifica a gravação de “Errerré”. Há certa dose de experimentalismo em “Fofo”, sobretudo nas duas músicas compostas por Chico César com Pedro Osmar (“9 linhas 22 toques corpo à escolha do diagramador”) e Paulo Ró (“A verdadeira história do Cavaleiro da fome contra o Dragão hipnótico”), membros fundadores do grupo paraibano Jaguaribe Carne, integrado por Chico em João Pessoa (PB) antes da travessia para o Sudeste do Brasil em busca de melhores oportunidades profissionais. Capa do álbum 'Fofo', de Chico César Sil Ribas De certa forma, mesmo embrionário, o cancioneiro juvenil reunido pelo artista no álbum “Fofo” já apontava as fontes da música de Chico. Se “Saudade senhora dona” puxa o fio da memória dos cantadores nordestinos de aboios e galopes, entre outros gêneros áridos como o sertão, “Lençóis maranhenses” se dobra em formato mais próximo da canção de amor, se espraiando “na movediça areia do amor nonsense”, como diz verso da letra. Já “Esclaridão” se revela tema mais ambicioso, de ares eruditos, perceptíveis tanto no classicismo do toque do violão (que parece reverberar o lirismo da obra maestra de Heitor Villa-Lobos) quanto na forma propriamente dita da canção, subintitulada “Suíte libertária em três movimentos”. Com quase sete minutos, a faixa menciona na letra danças e ritmos nordestinos recorrentes em Catolé do Rocha (PB), cidade natal de Chico César. Aberto com a faixa-vinheta “Hino da coroação” (cuja letra evoca haicai concretista por conter apenas os versos “Rei bobo / Bobo rei / Rei”), o álbum “Fofo” segue com a canção “Com a licença da palavra” e, duas faixas depois, expõe certo ardor no toque do violão em sintonia com o espírito apaixonado de “Snif snif”, canção pueril sobre morrer de tristeza. “Eu mais ela” é a música apresentada (com mais graça e mais suingue) por Maria Bethânia, em setembro de 2025, no show dos 60 anos de carreira da intérprete (a música saiu do roteiro no meio da curta turnê do show, não chegando a ser gravada pela cantora). E por falar em Bethânia, a canção “Quedar-me” ecoa algo de Caetano Veloso, a quem Chico curiosamente foi comparado (sem muito nexo...) quando ganhou projeção nacional com o supracitado álbum “Aos vivos”. Canção de safra recente do artista, a música-título “Fofo” inclui a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie na coautoria da composição porque Chico César cita na letra uma frase – “Eu não quero ser fofo, eu quero ser a porra do amor de sua vida” – do quarto livro da escritora, “Americanah” (2003). Há nos versos de “Profano” – canção menos sedutora sob prisma melódico – uma inquietude que parece atravessar não somente o álbum como a alma do artista, um dos mais politizados e ativistas do Brasil nos últimos anos. Canção de safra recente, “De ukelele para lua” cai em suingue febril ao flagrar o eu-lírico (provavelmente o próprio Chico) em atmosfera zen diluida por (recusado) pedido de selfie de fã intrusivo. O causo contado na música “De ukelele para lua” se afina com a curta narrativa cinematográfica de “Pobre Vila Rica”, faixa que encerra “Fofo”, jorro autoral disparado por Chico César entre flashes do presente e do passado que se harmonizam na voz e no violão do artista. Chico César registra no álbum 'Fofo' parcerias antigas com Pedro Osmar e Paulo Ró, integrantes do grupo Jaguaribe Carne Sil Ribas / Divulgação